Hora de embarcar. As pessoas se levantam e avançam
freneticamente para uma formação em fila à porta do embarque, como se os
bilhetes em suas mãos não estivessem marcados e elas ainda fossem escolher os
melhores lugares, ou apenas mais uma chance em mostrar a selvageria. No entanto, ela esperou um tempo até se levantar. Ainda desejou mais um café,
melhor, desejou já estar em casa, longe desse burburinho todo.
Dentro do avião percebeu que o livro que comprara, em uma
livraria do aeroporto, havia ficado em cima no balcão do café. Ficou danada com
isso. Dali para frente seriam 2 horas e quarenta minutos de não-ter-o-que-fazer, e tudo o que
não queria era focar o pensamento em onde estava. Sim, ela tinha muito medo de
voar de avião. Mas naquela altura não havia mais o que pudesse fazer, fechou os
olhos na hora da decolagem. Permaneceu com os olhos fechados por um longo
período. Apreensiva. O rosto gelando. A alma se esvaindo de seu corpo. As
pernas entrelaçadas nas ferragens da poltrona. O desespero tomando conta de sua
mente. Até que o avião se estabiliza. E aí sente uma mão tocar seu braço. O passageiro ao seu lado pede passagem, talvez precisasse ir ao
banheiro. “Mas já?!” Por que esse idiota não foi enquanto estava em terra? A
criatura espera o avião subir para usar o banheiro em pleno voo, quem entende
isso, quem??? Pensa com seus botões e afasta-se para o 'maldito' passar. Observa-o enquanto se afasta em direção ao banheiro da frente do avião. Percebe que ele demora mais que o normal. Algum
tempo passado, ele volta, a cara transtornada... conturbada. O que será que houve? Pensa, mas logo
descarta qualquer outro pensamento e há muito contragosto dá novamente passagem pro cidadão.
Ele olha para ela como se pedisse arrego. No entanto ela vira o rosto em sinal de que não está
interessada em conversa alguma. Mesmo assim ele resolve desabafar: “Tenho medo
de voar. Não, é bem mais do que isso, tenho pavor pavoroso de avião. Eu estava entrando em pânico. Acredita que fui
falar com o comandante e dizer que queria descer?” Não, ela não poderia sequer acreditar que ouvira aquilo...
Quando se está nas alturas a audição, em razão da compressão
do ar, fica um tanto prejudicada, todo mundo sabe disso. Mas não havia dúvidas
quanto ao que ouvira, o sujeito pediu para descer mesmo, coisa que ela já sentiu
muitas vezes vontade em fazer, mas, claro, nunca o fez. Que loucura!
Só disso ela gostava, dessa liberdade da loucura que faz com
que a razão não impeça de dizer ou fazer o que se quer e na hora em que se quer,
apesar de parecer para muitos como loucura. E daí? O sujeito ficou
mais aliviado por ter dito que desejava descer. E ela encontrou alguém mais
louco e também mais desprovido de censor. O resto da viagem eles ficaram em
silêncio, mas ela não poderia negar que sentiu certo alívio, por tabela.
Pare que eu quero descer! Ficou se repetindo isso até chegar em casa... que sensação boa! Apesar de irracional. Mas quem liga que seja?!