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quinta-feira, 15 de novembro de 2012

Em pleno voo

A companhia já havia anunciado que os passageiros do voo “tal” deveriam se dirigir ao salão de embarque, mas bateu-lhe uma vontade repentina de tomar um café, não hesitou, procurou por um como se fosse salvar sua própria vida. Não demorou em encontrar. Aproximou-se e pediu um café expresso, tomou-o sem pressa. O aeroporto estava lotado, centenas de pessoas para lá e para cá. Rostos estranhos, todos. Impressionante como somos muitos. E ela ali rodeada de tantas pessoas e, pelo visto, sem nenhuma possibilidade de esbarrar em alguém conhecido, não que quisesse isso, apenas se deu conta em como há gente neste mundo... Isso enquanto bebia delicadamente seu café. Pagou e se dirigiu ao salão, que já estava apinhado de gente. Muito burburinho, crianças impacientes, pais intolerantes, figuras bizarras, coloridas e outras bem elegantes, sombrias. Muitos conectados, ligados no mundo e sós no mundo.  Todo tipo de vida moderna em um só saguão de aeroporto de uma cidade grande.

Hora de embarcar. As pessoas se levantam e avançam freneticamente para uma formação em fila à porta do embarque, como se os bilhetes em suas mãos não estivessem marcados e elas ainda fossem escolher os melhores lugares, ou apenas mais uma chance em mostrar a selvageria. No entanto, ela esperou um tempo até se levantar. Ainda desejou mais um café, melhor, desejou já estar em casa, longe desse burburinho todo.
Dentro do avião percebeu que o livro que comprara, em uma livraria do aeroporto, havia ficado em cima no balcão do café. Ficou danada com isso. Dali para frente seriam 2 horas e quarenta minutos de não-ter-o-que-fazer, e tudo o que não queria era focar o pensamento em onde estava. Sim, ela tinha muito medo de voar de avião. Mas naquela altura não havia mais o que pudesse fazer, fechou os olhos na hora da decolagem. Permaneceu com os olhos fechados por um longo período. Apreensiva. O rosto gelando. A alma se esvaindo de seu corpo. As pernas entrelaçadas nas ferragens da poltrona. O desespero tomando conta de sua mente. Até que o avião se estabiliza. E aí sente uma mão tocar seu braço. O passageiro ao seu lado pede passagem, talvez precisasse ir ao banheiro. “Mas já?!” Por que esse idiota não foi enquanto estava em terra? A criatura espera o avião subir para usar o banheiro em pleno voo, quem entende isso, quem??? Pensa com seus botões e afasta-se para o 'maldito' passar. Observa-o enquanto se afasta em direção ao banheiro da frente do avião. Percebe que ele demora mais que o normal. Algum tempo passado, ele volta, a cara transtornada... conturbada. O que será que houve? Pensa, mas logo descarta qualquer outro  pensamento e há muito contragosto dá novamente passagem pro cidadão. Ele olha para ela como se pedisse arrego. No entanto ela vira o rosto em sinal de que não está interessada em conversa alguma. Mesmo assim ele resolve desabafar: “Tenho medo de voar. Não, é bem mais do que isso, tenho pavor pavoroso de avião. Eu estava entrando em pânico. Acredita que fui falar com o comandante e dizer que queria descer?” Não, ela não poderia sequer acreditar que ouvira aquilo...
Quando se está nas alturas a audição, em razão da compressão do ar, fica um tanto prejudicada, todo mundo sabe disso. Mas não havia dúvidas quanto ao que ouvira, o sujeito pediu para descer mesmo, coisa que ela já sentiu muitas vezes vontade em fazer, mas, claro, nunca o fez. Que loucura!
Só disso ela gostava, dessa liberdade da loucura que faz com que a razão não impeça de dizer ou fazer o que se quer e na hora em que se quer, apesar de parecer para muitos como loucura. E daí? O sujeito ficou mais aliviado por ter dito que desejava descer. E ela encontrou alguém mais louco e também mais desprovido de censor. O resto da viagem eles ficaram em silêncio, mas ela não poderia negar que sentiu certo alívio, por tabela.

Pare que eu quero descer! Ficou se repetindo isso até chegar em casa... que sensação boa! Apesar de irracional. Mas quem liga que seja?!

domingo, 21 de novembro de 2010

Uma crônica

Com os cotovelos debruçados no parapeito da varanda ela olhava os transeuntes enquanto apreciava com extremo prazer seu último cigarro. Havia resolvido parar, “isso está me matando aos pouquinhos, terei que parar um dia, por que não hoje?”, pensava consigo. Naquele momento viu um carro entrar na garagem e correu para o sofá, antes se certificou de ter apagado o cigarro e abafado o seu odor com as mãos, espanando-as no ar. Manteve a janela aberta. Sua filha acabara de entrar pela sala, eufórica.
__E aí, como foi a terapia? Enfim teve alta? – perguntou tentando disfarçar o aroma que ainda pecorria em seu derredor. Inultimente.
__Ainda não, mas hoje fizemos progresso.
__Que bom! E eu posso saber qual foi?
__Sim. Não há problemas algum que você saiba. De certa forma tem a ver com você...

Já esperava por isso. Restava saber qual seria sua parcela de “você” em tudo aquilo.
__Sendo sua mãe, não me espanto em ter participação no seu progresso, até mesmo no inverso. Conte-me logo.
__Chegamos a conclusão, a terapeuta e eu, de que você quer competir comigo.

Sempre a aborreceu essa mania que os médicos, terapeutas e o escambau a quatro, têm de tratar tudo na primeira pessoa do plural. Eles querem adentrar em toda a nossa natureza, fazerem parte do processo (problema) de maneira ativa. Metem-se no meio de forma absoluta. Grande farsa. Exasperada com aquilo que ouvira, encheu um copo com seu drinque preferido e tomou de um gole só. Desejou desesperadamente um cigarro, mas se controlou. Esperou que os minutos de desfizessem no ar e indagou com impaciência e ironia na voz.
__Eu compito com você? Foi isso que a expert da alma humana disse, que seu “problema” (aspas com os dedos nervosos) é que EU compito com você?
__Isso mesmo! Ela disse, inclusive, que você iria reagir de maneira agressiva, que eu tivesse muita perspicácia em contar-lhe esse nosso desfecho, muito embora, havia me aconselhado a não fazê-lo. E pelo visto ela estava coberta de razão.
__Vamos ver onde entra essa competição entre nós, porque eu sou Médica, você estudante de Matemática. Tenho 42 anos, e você, 21. Em termos profissionais será difícil frequentarmos os mesmos ambientes, e muito raramente desfrutaremos das mesmas companhias. Meu marido é seu pai, e a menor que você se chamasse Electra, isso, talvez, repito, talvez fosse um problema. E por fim, mas com a maior importância do mundo, a conclusão a que chego é que você é doida, sua terapeuta é doida e eu sou a mais doida de todas, porque sou a que pago para ouvir uma idiotice dessa. E mais, sim, ainda tem mais e essa é a melhor parte, se ela ainda não lhe deu alta, eu dou! Você acaba de ficar curada! Aleluia!!!

Não trocaram mais nenhuma palavra e cada uma foi pro seu reduto na casa. Aqueles instantes de silêncio seriam necessários para refrescar os pensamentos e as imagens na mente delas. Refletiriam sozinhas. Sabiam que não tardariam em fazer as pazes. Eram muito próximas, parecidas até, mas, competir seria demais! Recolheram-se. Tem horas que é preciso tirar o exército de campo, sabiam que aquela era a hora. Não falariam, por enquanto, nesse assunto...
Acendeu mais um cigarro, ainda não seria hoje que largaria o vício, talvez nunca o fizesse, e continuou olhando os transeuntes que passavam lá embaixo, imaginando o que se passariam na cabeça de cada um... quais seriam os seus problemas. Seus amores, suas dúvidas... Seus desejos...
Nunca saberia. Mas estava em paz consigo e com o mundo. Era o que mais importava.
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Música de fundo: I wish you love (na voz de Laura Fygi)