“O patinho feio da história simboliza a natureza selvagem, que, quando forçada a enfrentar circunstâncias pouco propícias, luta instintivamente para continuar viva apesar de tudo. A natureza selvagem sabe instintivamente aguentar e resistir, às vezes com elegância, às vezes sem muito estilo, mas resistindo assim mesmo.”
Clarissa Pinkola Estés – "O Patinho Feio" em: Mulheres que correm com os Lobos
Os dias que se seguiram foram normais, eu retornava para casa sozinha, valendo-me da máxima: “antes só do que mal acompanhada!” Não sentia falta delas. E como poderia? O sentimento que me acompanhava em todo o trajeto era de alívio, igual a refresco gelado em dias quentes, descia doce e suave pela garganta e dava um prazer indescritível.
Seguia meu caminho, muda. Não gostava de falar, seria um tormento ser obrigada a dizer qualquer coisa. Na minha rua eu não tinha muitos amigos, preferia a companhia de Kátia Plecs e da minha outra amiga imaginária, que nunca teve um nome, sempre foi a "Outra". As tardes eram para as brincadeiras e conversas com elas. Boas lembranças disso, dessa inocência desmedida. Na escola também não tinha muitos amigos, pra falar a verdade eu não tinha facilidade em fazer amigos, era incompetente demais nesse quesito. Não era apreciada pelas outras crianças, talvez pelas minhas características físicas e psicológicas, ei-las: quieta, comportada, calada, tímida, reprimida, magra, pequena, feia, cabelos curtos e encaracolados, olhos enormes, sobrancelhas emendadas... Não, eu não era nada atraente para a maioria dos mortais de minha idade. Uma coisa mirradinha que só vendo. Arremedo de gente.
No entanto, uma excelente aluna, digo sem modéstia alguma. Por isso, mantive durante todo o período escolar o primeiro lugar sem muito esforço, me saía bem em todas as provas e atividades escolares, eu era uma danada e isso talvez fosse um dos principais motivos da minha precária socialização com os outros, penso eu. Sabidinha demais. E olhe que não era uma 'gênia' nem nada. Na verdade, a escola é que era pouco exigente.
Nessa época eu lia tudo o que chegava às minhas mãos, não posso dizer que havia fartura de livros em casa, mas o pouco que havia eu lia por puro prazer. Uma enciclopédia chamada Conhecer. Lia os fascículos que ainda estavam sem encadernação, porque pesavam menos. Interessava-me pelos mais diversos assuntos. Havia também uma coleção do folclore brasileiro “Estórias e Lendas do Brasil”, eram cinco livros, divididos por regiões, as histórias eram narradas pelo palhaço Arrelia, todas elas maravilhosas! Tinha medo e compulsão pelas lendas mais assombrosas, mas lia escondido, e depois ficava impressionada e com medo, especialmente na hora de deitar pra dormir. Não queria que ninguém soubesse nada de nada sobre mim. Nem do gosto e muito menos do desgosto. Tampouco dos medos.
E o segundo lugar do colégio era de um menino, igualmente isolado dos outros, os outros o achavam efeminado demais. Faziam insinuações sobre sua masculinidade, ficavam caçoando do seu jeito educado e da maneira dele se vestir. Ele, por sua vez, parecia não dar a mínima, não rebatia os gracejos, simplesmente os ignorava. Eu gostava dessa sua altivez. E nascia daí uma bela admiração por Jaílson, este era o seu nome. Ele tinha o cabelo bem penteado, a roupa bem passada, a camisa com todos os botões abotoados, sentava-se ereto na cadeira, cheirava a alfazema e a banho bem tomado. No recreio ficávamos sozinhos, às vezes próximos, às vezes em paredes opostas. Nunca fomos grandes amigos, mas trocávamos olhares de solidariedade. Era um olhar de compreensão, de não fazer parte de nenhum daqueles grupos, por que jamais seríamos aceitos, sabíamos disso. E eu negava com veemência que sentisse vontade que tudo fosse diferente. Não, não, era melhor do jeito que estava. As outras pessoas nada tinham a ver conosco. Nada!
Em uma das provas, errei propositadamente para ceder o primeiro lugar para Jaílson. Ele merecia, éramos iguais e assemelhados. A professora desconfiou. Quando fez o anuncio olhou pra mim com olhar de reprovação, parecia que sabia, mesmo assim não fez nenhum comentário que pudesse nos constranger, deixou para lá, penso eu. E eu senti mesmo foi o gosto travoso da desonestidade. Mas a repreensão no olhar dela não doeu tanto quanto a minha consciência acusadora em repetição: “Isso foi trapaça!” Que vergonha.
Entretanto, ele ficou feliz com o curto período de reinado. Concluí, por fim, que valeu a pena.
Descansei a consciência por uns dias.
E ao contrário do que possa parecer pelos ditos acima, refiro-me à história do patinho feio, eu não me transformei em cisne. Ah, longe disso. Apenas aprendi a dar ouvidos aos instintos selvagens. Minha verdadeira natureza, o lugar a que pertenço.
FIM