Eu moro em frente a uma praça. Não é uma praça digna de um cartão postal e tal, ela não é mesmo lá grandes coisas, mas verdade seja dita, tem suas resenhas, algumas até bem singulares, verão vocês. E não fosse o dia de hoje eu nunca me daria conta da riqueza e da variedade de pessoas que transitam por ela.
Há a velha que todas as manhãs varre a rua em frente sua casa e em volta da praça. Doravante será chamada de Velha varre-varre. Ela amanhece o dia e já aparece com sua vassoura na mão. Acredito eu que essa tarefa diária foi atribuída por ela mesma. O danado é que todo o lixo arrecadado nos arredores, ela coloca na frente da casa dos outros. A sua frente é de uma limpeza impecável, claro. Algumas pessoas até já reclamaram isso dela, mas não se afeta, continua fazendo o que julga ser o certo. Afinal, o lixo é da praça e não dela... coisa que de vez em quando responde, isso quando está na veia boa, porque do contrário, chama todos os palavrões que há no vocabulário, mas só os mais cabeludíssimos! Impressionante a variedade. Eu morro e não os decoro.
Vera, a doida que passa a noite na praça, "acorda" e reclama do barulho que a velha faz com a vassoura, daquele rangido nas folhas secas em contato com as pedras. Ela revira de um lado pro outro e com sua irritação peculiar de doida, faz o seu discurso de praxe, para logo em seguida puxar o lençol por cima de sua cabeça e voltar a, talvez, dormir. Penso eu que doido não dorme. Mas reclama, isso não tenham dúvidas.
A Velha varre-varre diz algumas coisas sobre isso. Vera se levanta e manda aos brados ela se danar! Trocam alguns desaforos. Mas no fim, fica tudo por isso mesmo. E cada uma continua o que estava fazendo, como se não houvesse acontecido nada. A paz sonora volta a reinar, por alguns instantes...
Aí, surgem os meninos que vão indo pra escola, eles cortam caminho atravessando a praça e, claro, não resistem, puxam o lençol que cobre Vera e saem correndo. Ela levanta-se mais uma vez e solta a todo o volume seu linguajar louco, exasperado e "impublicável", diria até que muitos deles eu nunca nem ouvi falar, talvez sejam de uma língua estranha, "dos doidos"... Eles caem na gargalhada e continuam a insultá-la com gestos obscenos. Ela revida jogando as pedras que estão próximas, joga até suas poucas roupas, sapatos e tudo o mais que está ao seu alcance. Não dura muito os meninos cansam disso e se metem rua abaixo até desaparecerem por completo. A doida, soltando fogo pelas ventas, se despe e coloca seu biquíni. Deita-se no banco da praça e fica despojada tomando sol. Isso na maior tranquilidade. E muito, mas muito à vontade mesmo. Não dura muito e logo ela passa de casa em casa reclamando o desjejum.
No final da tarde surge o rapaz que vem ver o pôr-do-sol acompanhado de seu cachorro poodle. Todos os dias na mesma hora ele chega com seu cachorro, fica em pé, segura a coleira firme para que o animal faça parte do ritual e olha fixamente em direção do sol, o rosto contemplando o final de mais um dia...entardecendo e ele visivelmente deslumbrado. Juro que é uma cena maravilhosa, digna de um filme. E tudo isso numa praça de loucos feito essa.
Nas manhãs dos domingos todos os colecionadores de pássaros da redondeza se juntam na praça. Penduram as gaiolas nos galhos das árvores e ficam de conversa mole uns com os outros. Nunca entendi essa história de pássaros em gaiolas, menos ainda que prazer pode sentir uma pessoa com esse tipo de passatempo. Acho um abuso e um descaramento sem par, como se não tivessem receio de nada. Não é ausência de lei, todos sabem disso, mas aqui impera a permissividade. Lamentável.
E hoje pela primeira vez eu vi uma moça fazendo yoga sentada no chão em posição de Lótus, bem no canto da sombra da jaqueira, a maior árvore da praça. Assim, como se fosse a coisa mais natural do mundo, tão natural que nem sei como é que pode e consegue. Compenetradíssima.
Era sobre isso que me referia quando iniciei esse texto aí em cima. Eu até julguei que estivesse vendo coisas, juro por Deus. Mas qual o quê?! Tem de tudo por aqui...
O que mais falta aparecer nesta rua? Sabe Deus.
A propósito, por mais absurdo que possa parecer, e sei que parece mesmo, tudo isso aí é a mais pura e louca realidade. Juro com os dois pés juntos!
2 comentários:
eu acredito em tudo. e queria mesmo era saber onde danado fica esta praça.
rola uma foto da praça?
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