Aos 11 anos eu me apaixonei pela primeira vez. E numa retrospectiva sobre essa paixão, percebo que não há nada de belo em minhas lembranças. Primeiro ele quis me namorar, seguia-me por todo o colégio durante o intervalo (recreio) e na saída pra casa. Sem nada dizer, apenas seguindo-me. Eu não sabia o que fazer e confesso que me incomodava aquela perseguição sem palavras. Até que ele parou repentinamente, nunca mais me seguiu. Senti falta dele ao meu redor. Foi aí que tudo mudou, eu passei a segui-lo. De maneira mais discreta que ele, mas o seguia, sim. Não demorei a desistir do papel que me imputei. Imputei-me dele e da minha inabilidade. E a paixão sumiu feito fumaça sobre minha cabeça. "Legal, não vou ser daquelas que sofrem e se acabam em lágrimas por um idiota qualquer", pensei... E azeite, senhora vó!
Mais tarde, julgando ter adquirido um pouco mais de experiência, pensei que tudo poderia ser diferente. E foi. Quer dizer, foi mais ou menos... Aos 15 eu me apaixonei de novo. Dessa vez eu que iniciei a perseguição. Aquele jogo de aparecer sem mais nem menos onde o outro "poderia estar" e deixar transparecer casualidade, naturalmente... Pois sim... Na arte do disfarce eu tirava um zero bem redondinho. Assustava qualquer um com minhas investidas desajeitadas. Sou um desastre nesse quesito. E por fim, o sujeito veio, não sei se por pena de mim ou pelas minhas ‘bandeiras’, mas o que importa é que começamos a namorar. Não estudávamos no mesmo colégio. Ele estudava na Escola Técnica (hoje IFPB) e me apanhava na saída, meu colégio era no caminho que ele fazia de volta. No primeiro dia achei legal porque pensei que tinha sido por acaso, mas com o passar do tempo cansei desse negócio dele me encontrar no meu colégio. Dele no meu caminho. Queria espaço. Não sabia que queria, mas queria. Nessa altura do campeonato ele estava apaixonadíssimo por mim, e eu enfaradíssima dele... Quem entende?! Acabamos e voltamos a namorar uma infinidade de vezes. Tomava um abuso do coitado... Ficamos nesse chove não molha por um bom tempo, ou melhor, até eu entrar na universidade e encontrar um osso duro de roer. De antemão aviso-lhes que não há associações com o osso enterrado no meu quintal. Essa análise psicológica barata não rola mesmo. Garanto-lhes!
Aos 18 anos passei no meu primeiro vestibular. Estava feliz e realizada com o curso. E tudo transcorria normalmente. No segundo ano do curso me apaixonei pelo professor de Ecologia. Fui um caso típico de aluna obcecada pelo professor. Dessas paixões loucas, avassaladoras, de pirar a cabeça de uma pessoa já pirada por natureza. Bem, estigma assumido. Eu que não gostava de coisas banais, tinha caído no lugar-comum. Muito embora, para mim, aquele sentimento era mais que incomum. Ouvia muito coisas do tipo: “ah, isso de aluna e professor é normal, acontece, depois passa, você vai ver”. Mas à medida que o tempo passava só me enveredava mais na paixão. Era algo que me tomava todo o tempo e o pensamento, eu só pensava em vê-lo o tempo todo. Obsessão? Paixão? Amor... Sei lá... Eu não me preocupava em dar nomes ao que sentia, eu só queria estar junto e ponto final. O fato dele ser divorciado, bem mais velho que eu e ter 3 (três) filhos, que moravam com ele, não me desencorajava, pelo contrário, adorava os filhos dele também e a diferença de idade nunca foi algo que me tomasse o tempo em pensar. Então, nada me tirava o foco, a essência. E disse pro outro. E disse pra algumas pessoas próximas. Eu estava explodindo de amor, precisava compartilhar o turbilhão em mim.
Depois que terminei a cadeira, passado alguns meses, começamos a sair... Estava encantada. O tempo só aumentava a admiração, a vontade de estar junto, esse era um desejo unilateral... Doía demais essa certeza. Aos 25 anos tive a filha Ná. E ela hoje é o único laço que nos une. Restou um carinho por ele, mas nada que ultrapasse o limite da normalidade entre pessoas. Nada mais será nem perto de tudo o que senti. E, claro, ainda tenho uma grande admiração, mas é só. Dia 25 de setembro é seu aniversário. O tempo passou voando sobre nossas cabeças e não sei bem a razão, mas hoje pareceu um filme bom, mas que já passou. Hoje temos uma relação boa e cordial. Estamos de bem com a vida. Cada um pro seu lado. E isso daqui é um resumo das minhas paixões passadas, que considero ter ficado extenso demais o post... Mas tudo bem, foi por mim e para mim que revi.
Não tem continuação...
5 comentários:
Fosse Kátia Frida Plecs falando aqui, eu diria: Kátia, quer dizer, Frida, Nath é tua obra-prima, quer dizer, obra-filha.
Sim, eu gostei de recordar tudo isso.
Sim, depois me bateu um negócio assim meio inexplicável.
Mas, estamos aí pro que der e vier!
Resíduo
De tudo ficou um pouco
Do meu medo. Do teu asco.
Dos gritos gagos. Da rosa
ficou um pouco
Ficou um pouco de luz
captada no chapéu.
Nos olhos do rufião
de ternura ficou um pouco
(muito pouco).
Pouco ficou deste pó
de que teu branco sapato
se cobriu. Ficaram poucas
roupas, poucos véus rotos
pouco, pouco, muito pouco.
Mas de tudo fica um pouco.
Da ponte bombardeada,
de duas folhas de grama,
do maço
- vazio - de cigarros, ficou um pouco.
Pois de tudo fica um pouco.
Fica um pouco de teu queixo
no queixo de tua filha.
De teu áspero silêncio
um pouco ficou, um pouco
nos muros zangados,
nas folhas, mudas, que sobem.
Ficou um pouco de tudo
no pires de porcelana,
dragão partido, flor branca,
ficou um pouco
de ruga na vossa testa,
retrato.
Se de tudo fica um pouco,
mas por que não ficaria
um pouco de mim? no trem
que leva ao norte, no barco,
nos anúncios de jornal,
um pouco de mim em Londres,
um pouco de mim algures?
na consoante?
no poço?
Um pouco fica oscilando
na embocadura dos rios
e os peixes não o evitam,
um pouco: não está nos livros.
De tudo fica um pouco.
Não muito: de uma torneira
pinga esta gota absurda,
meio sal e meio álcool,
salta esta perna de rã,
este vidro de relógio
partido em mil esperanças,
este pescoço de cisne,
este segredo infantil...
De tudo ficou um pouco:
de mim; de ti; de Abelardo.
Cabelo na minha manga,
de tudo ficou um pouco;
vento nas orelhas minhas,
simplório arroto, gemido
de víscera inconformada,
e minúsculos artefatos:
campânula, alvéolo, cápsula
de revólver... de aspirina.
De tudo ficou um pouco.
E de tudo fica um pouco.
Oh abre os vidros de loção
e abafa
o insuportável mau cheiro da memória.
Mas de tudo, terrível, fica um pouco,
e sob as ondas ritmadas
e sob as nuvens e os ventos
e sob as pontes e sob os túneis
e sob as labaredas e sob o sarcasmo
e sob a gosma e sob o vômito
e sob o soluço, o cárcere, o esquecido
e sob os espetáculos e sob a morte escarlate
e sob as bibliotecas, os asilos, as igrejas triunfantes
e sob tu mesmo e sob teus pés já duros
e sob os gonzos da família e da classe,
fica sempre um pouco de tudo.
Às vezes um botão. Às vezes um rato.
Oxe, JP pequena! Já vi uma banca com seu homenageado ex marido.
Nem homenageado, nem ex-marido!!! Ex muitas coisas, mas não ex-marido... [eheheheheh]
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