quarta-feira, 24 de novembro de 2010

Simplesmente, ficando velha e cega

[foto: almoço de comemoração do aniversário de Zezé no Boibumbá]

Fui fazer minha visita regular ao oftalmologista. Fui com Zezé, minha amiga. Ela também foi fazer sua consulta costumeira. E é sempre bom andar com ela porque, no mínimo, damos boas risadas juntas. Uma maravilha terapêutica das deusas, nós!
Já no consultório. Atualizo minha ficha. Não demora muito e chega minha vez, a atendente me chama pelo nome: “Isabel?!” Sou eu!
Entro animada na sala do Dr. Antonio. Nem bem sento, já começo a debulhar minhas lamúrias visuais. Não sou de delongas, vou direto ao assunto.

__Dr. Antonio eu estou estarrecida com o aceleramento do desgaste de minha visão. Cada ano que venho aqui eu já sei que vou aumentar o grau dos óculos. Desse jeito quando eu completar 50 anos estarei com uns 3 graus ou mais em cada lente. Não há como desacelerar isso? Vou terminar cega, é assim mesmo?

Vocês sabem aqueles médicos que não se alteram com a conversa alheia, digo, dos pacientes? Pois ele é um desses. E não manifestou qualquer surpresa nas palavras que, descuidadosamente, foram proferidas por mim. Manteve-se imóvel o fidamãe. Nem se buliu na cadeira.
Ele é um homem de seus já 68 anos, cabeleira quase na altura do ombro, bem lisa e escorrida, algumas mechas caindo na frente, parece mesmo uma peruca, como a de Chico Xavier. Ele também usa uns óculos esquisitos e cafonérrimos. E naquele momento os seus olhos amendoados, envelhecidos e sem brilho estavam fixados em mim, por isso creio que, pelo menos, me ouvia. Menos mal...
Depois eu me aquieto e espero seu parecer e, especialmente, sua solidariedade frente aos meus queixumes, mas, a princípio, apenas ouço o desenlace que se segue.

__O problema é que a senhora está ficando velha e não quer aceitar isso! Cada ano aumenta o grau, sim. E aos sessenta anos terá catarata ou glaucoma. Isso é o curso natural da vida. Acostume-se!

[silêncio mortal] Hã? Eu ouvi direito?! Pensei comigo, mas as ondas sonoras ainda flutuavam por cima de minha cabeça e pude ouvir a repetição de sua voz bem dentro do meu cérebro: “a senhora está ficando velha e não quer aceitar isso” E o pior, vou ter catarata aos sessenta... Que prognóstico maldito é esse??? Não havia dúvidas, ouvi direito. Mas o que danado está acontecendo com as pessoas, mai god? Onde foram parar as regras de traquejo, a habilidade profissional, o dizer com cautela e diplomacia as verdades? Não bastasse o mocinho do caixa na farmácia outro dia, agora eu tinha de engolir essa de velha e cega, assim na lata.... De novo?!
Depois disso, claro, perdi o rebolado por completo. Mas enfim, estava ali e tinha de revisar o grau, inclusive da nova armação. Tirei meu Marc Jacobs da bolsa (lindo de viver), coloquei-o no rosto e pedi para que ele avaliasse se o grau estava correto, eu ainda não havia feito a conferência disso. E se ainda não bastasse tudo o que ouvi, ele ainda me veio com essa:

__Essa sua armação aí pode ser muito bonitinha, mas não é funcional. Não presta! Esse povo de loja quer vender de todo jeito e vem com pilantragem dizendo que ficou bem e qualquer coisa... Mas você tem de comprar uma meia armação. Pode esquecer esse. Compre um assim como o meu. – e mostrou sua meia armação (para perto), colocou no rosto para que eu visse como deveria ficar, bem no meio do pau da venta (nariz não se aplicaria neste momento de desforra). – Viu? É assim que você tem de usar, desse jeito. É só pra perto. Pode esquecer esse seu daí... – e sacodiu com desdém sua mão empalemada no ar.

Fim da consulta. Saio da sala. A atendente logo chama Zezé. Ela me dá um sorriso, que funciona como um espécie de consolo, e pergunta: “E aí, Maga, tudo bem? Que cara é essa?!” Eu faço cara de muxoxo e digo: “Zezé, tou arrasada!” Antes dela entrar consigo repetir bem ligeiro as palavras iniciais de Dr. Antonio. Ela cai na risada. E eu também!

Foi o que eu disse no começo, sempre daremos boas risadas juntas, seja lá do que for!
E daqui pra frente vou andar com um livro de boas maneiras e outro de atendimento ao cliente na bolsa. Onde já se viu, “ficando velha e não aceito isso”... Pois tá bom. Povinho inábil!!!
Fui tomar banho!
..........................................
Música de fundo: Eu e Água, de Caetano, na voz de Maria.

4 comentários:

.ailton. disse...

gostei da descrição do oftalmologista...

e leia logo esse comentário porque daqui a alguns anos você não conseguirá mais lê-lo.

eheh (brincadeira)

Anônimo disse...

Hahahaha ... Boa demais você.
Esses teus textos são "colirio pros olhos" e uma alegria pra alma.

Eita!Mulher porreta.

Bbel disse...

Eu só não disse que me consulto com ele desde que comecei a usar óculos. =[
E ainda fui muito modesta na descrição da figura empalemada. Pessoalmente ele é muito, mas muito mais bizarro.

Anônimo disse...

kkkkk, já pensou em trocar de médico, rsrsrs?