Já faz uns dias que notei o seu desaparecimento. Já refiz a lista de pessoas que entraram e saíram daqui, mas ninguém que tivesse tamanha ousadia em furtar um objeto de um porta-retrato. Local onde deveria estar não fosse uma mão matreira a esconder-lhe de nossas vistas. Acho melhor dizer-lhes mais claramente do que se trata. Na sala de jantar, bem próximo dos livros e da estante de pratos há um lugar onde são colocadas fotos da família. Não são muitas, são até bem poucas, mas uma especial tinha um terço em sua lateral, na parte superior direita, desses terços em miniatura. Uma coisa singela, mas de valor sentimental, por assim dizer... Não é que eu goste ou faça uso dele, apenas sempre esteve sobre a foto de minha mãe. Ela sim era católica fervorosa. Mulher religiosíssima! Eu nunca consegui ser nada na vida, por pouco ou muito tempo. Mas senti falta imediata do terço. Bati o olho e vi que ele havia sumido.
Passaram alguns dias e eu sequer suspeitava do culpado. Chamei a mocinha que trabalha aqui em casa. “Sabe o que houve com o terço de minha mãe?” Essa balançou a cabeça negativamente. “Dê uma procurada, faça-me o favor, pode ser?” Procurou por todos os buracos, segundo disse-me mais tarde, mas nada do terço. Era de fato um mistério.
__Nada dele?! Como é que pode isso? – sou do tipo incansável, só paro quando esgoto todas as possibilidades. Absolutamente, todas. E o terço haveria de ter um paradeiro. Alguém deveria saber de algo...
__Num sei não, senhora, só sei que revirei a casa toda e nada de encontrar o negócio. Sei onde ele pode estar, não. Pra mim é caso perdido.
__Perdido uma ova! Uma coisa não some assim feito poeira. Procure melhor. Por ser pequeno pode ter caído em qualquer lugar... em qualquer fresta. Será que você varreu ele pro lixo?! Mas eu não quero nem pensar numa coisa dessas...
__Perdido uma ova! Uma coisa não some assim feito poeira. Procure melhor. Por ser pequeno pode ter caído em qualquer lugar... em qualquer fresta. Será que você varreu ele pro lixo?! Mas eu não quero nem pensar numa coisa dessas...
Eu olhava pra foto de minha mãe e sentia seu olhar de volta, fiquei apreensiva com aquilo, ela queria seu terço de volta. Sabia disso. Seu olhar, antes sereno, com um leve sorriso de canto de boca à la Mona, agora tinha um ar de desconsolo, de tristeza mesmo. A mocinha até me aconselhou comprar outro. Descartei totalmente a ideia. “Mas isso nem pensar. Tem de ser aquele.” Dessas coisas que ela não iria entender nunca. É que o objeto da pessoa faz parte dela, mas num pode ser qualquer um, tem de ser aquele que lhe foi destinado desde sempre. Não é substituível. Assim é desrespeito!
E quando eu achava que não havia mais esperanças, o terço foi encontrado. Alguém o pendurou na tromba do elefante... Que astúcia! Lá estava o elefante, que carregava o incenso de musgo de carvalho, com o terço na ponta de sua tromba, balançando, pouquinho com o vento. Fiquei feliz e aliviada. Agora restava saber como ele foi parar lá...
__Tem importância não, filha. Dá cá ele pra mim que estou uns dias devendo a reza.
Coloquei o terço em seu lugar. Meu coração e o ambiente entraram em harmonia. Em seguida a repetição de palavras que ecoaram pela sala inteira. “Seja feita a vossa vontade.” "Santa Maria." Assim seja!
Nessa noite dormimos todos em paz. Mas eu posso jurar que no outro dia vi uma minúscula lágrima de sangue descer de um dos olhos do elefante. Eu até arrisquei enxugá-la com a ponta do meu dedo, mas pensei que seria melhor não mexer com o ressentimento alheio.
E foi mais forte o cheiro de musgo naquela noite... e nas outras que se seguiram...
Imagem: Google
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2 comentários:
Se isso foi relmente um fato, parabéns pela forma de descrevê-lo. Consegue imprimir muita emoção aos textos.
gabriel garcia marquez baixou em ti.
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