Na rua em que eu morava tinha de tudo. Certamente não poderia faltar uma casa mal-assombrada. Havia uma que ficava bem no final da minha rua. Ao redor um imenso terreno baldio. Lugar ermo. Barulhos estranhos, especialmente à noite. Ninguém ousava passar por perto. Os gritos que vinham de lá eram ensurdecedores. Todos tinham receios. Adultos e, principalmente, as crianças. Mas quem teria coragem de se aventurar e passar?
Casa antiga, o mato crescendo, aspecto de completo abandono. Portas e janelas fechadas. Cenário macabro, digno de filme de terror de arrepiar os cabelos. E exatamente por isso exercia um verdadeiro fascínio sobre mim.
Nunca ousei passar muito próximo, nunca com passos lentos em seus arredores. As pernas batiam na bunda de tanta carreira, da pressa motivada pelo medo. Mas a atração era tamanha, embora o medo fosse maior, eu sempre inventava uma desculpa pra passar correndo por lá. Prazer de sentir medo. O coração batia descompassado. Ansiedade. Suor frio. Um medo irracional. Após a travessia, êxtase!
Era a diversão de todo final de tarde, passar por lá. Voltar quando a noite chegasse. Olhava-a de longe. Uma façanha e tanto, com vitórias a cada travessia. Última olhada... De repente, vi um vulto que circulava por entre as janelas fechadas. Os passos lentos, arrastados, sofridos. Olhar carrancudo, perdido... Parecia não se importar com o que acontecia a sua volta. Um dia me encarou de longe, senti que me observava. Era uma mulher, vestia uma roupa longa e florida, talvez fosse uma camisola... O rosto envelhecido. A dor tão visível... Ela me olhou fixamente. Não contei conversa e corri o máximo que pude. Sentia o seu olhar atrás de mim. Um frio gelado percorrendo toda minha espinha dorsal, quase perdendo os sentidos. Não podia desmaiar, o que diriam em casa sobre isso?
Mas nem por isso deixei de passar por lá nos outros dias. E o medo só havia aumentado, tornara-se mais real, tinha rosto, um rosto de dor e cheiro. Horríveis. A morte parecia rondar 24 horas por dia. O cheiro era forte. Os gritos horripilantes. Lancinantes. Contínuos e ritmados. Quem gritava assim? Seria ela? Gritos de dores incessantes.
Só depois de passado um tempo, soube que a casa não era assombrada coisíssima nenhuma. Uma senhora padecia de câncer já em fase terminal. Com “metástase generalizada”, ouvi alguém dizer isso. Eu sequer supunha, na época, o que vinha a ser isso. E a senhora morreu depois de alguns dias. Senti muita pena dela, ninguém merecia morrer assim, aos pedacinhos e sofrendo tanto...
Havia uma jovem que cuidava dela, não sei se era filha... talvez fosse, mas que nunca mais foi vista.
Havia uma jovem que cuidava dela, não sei se era filha... talvez fosse, mas que nunca mais foi vista.
O medo se transformou em realidade. O mistério foi desfeito e a doença, cujo nome até então era impronunciável, havia chegado às famílias dali. Sem avisar, sem pedir licença. Tinha uma cara e um cheiro horríveis. Maldita!
__ Nesses últimos dias, eu a vi andando no alpendre da casa assombrada... Andava de um lado pra outro e com muita dificuldade. Olhou pra mim... Eu senti um medo medonho de novo e corri como louca para... – nem bem terminei de falar, ela me interrompeu.
__ Viu como? Ela não andava, já estava na cama há anos. Que conversa é essa? Viu nada! Deixe de inventar histórias, menina! – disse-me Kátia Plecs.
Boa parte de minha vida foi cercada por acontecimentos sem explicações. Até o que poderia ser um caso explicável, por exemplo, este que acabei de relatar, acabou confuso pra mim. Por que enxergava o que ninguém via? Mas, eu nunca insistia, depois de entender que não era “real”, não tocava mais no assunto. Para quê?!
2 comentários:
Este é o leiaute de que mais gostei. E como estou saindo da fase ‘preto e branco’, que continuo a achar bacana, é hora de pintar o muro e as paredes em volta de outras cores. Imaginárias ou não.
Talvez só eu veja isso. Afinal, tenho alucinações.
amigos invisíveis... tenhos aos montes! rsrsrs
bjs meus
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