sexta-feira, 25 de maio de 2012

Com licença poética


                                    [foto Eder Chiodetto]

Quando nasci um anjo esbelto,
desses que tocam trombeta, anunciou:
vai carregar bandeira.
Cargo muito pesado pra mulher,
esta espécie ainda envergonhada.
Aceito os subterfúgios que me cabem,
sem precisar mentir.
Não sou feia que não possa casar,
acho o Rio de Janeiro uma beleza e
ora sim, ora não, creio em parto sem dor.
Mas o que sinto escrevo. Cumpro a sina.
Inauguro linhagens, fundo reinos
— dor não é amargura.
Minha tristeza não tem pedigree,
já a minha vontade de alegria,
sua raiz vai ao meu mil avô.
Vai ser coxo na vida é maldição pra homem.
Mulher é desdobrável. Eu sou.

[Adélia Prado]

2 comentários:

author casulo-online disse...

Ela diz que alguns poemas tem que transvasar em realidade, porque só temos o cotidiano... decerto nem a linda alma Adélia foge dessa realidade, às vezes sem muito pedigree (a realidade), uma coisa mais ou menos, morna, e normalmente tensa.
Ahh, eu acho ando precisando sonhar, isso sim rs, você também?

Cheiros, bom fim de semana!!

Bbel disse...

Eu sonho todas as vezes em que durmo, mas ultimamente ando sonhando acordada quase o tempo todo. =)