- reeditado -
Lembro como se fosse hoje, lá por volta dos meus sete ou oito anos eu estudava em uma escola que ficava perto de minha casa, Grupo Escolar General Wanderlei, era perto o suficiente para ir a pé. O trecho mais longo era a travessia do quartel do 15RI. Com aquele muro extenso que parecia não ter fim, principalmente em relação as minhas pernas pequenas e magras.
A farda era uma microssaia plissada na cor azul-marinho. A blusa de tergal branca com apenas um bolso do lado esquerdo com o emblema da escola bordada. Simples, mas elegante.
A escola também era simples, sem grandes adereços em sua arquitetura, nada que valesse como recordação. Eu ia só, mas voltava acompanhada de duas meninas que faziam o mesmo trajeto até certo trecho do caminho de minha casa, depois elas seguiam juntas, não sei onde moravam. Elas conversavam sem parar, riam a maior parte do tempo. Embora estivesse com elas, emparelhadas até, eu não participava das conversas, tampouco das graças. Eu não dizia uma só palavra, não tinha nada a dizer nem sentia vontade. Acho que isso as aborrecia. Uma vez quando nos aproximamos da rua em que eu dobraria, elas se entreolharam, deram um risinho de cumplicidade e levantaram a minha saia, por pura maldade. Depois saíram correndo de mãos dadas. Eu fiquei um tempo parada me recompondo da humilhação. Estatalada de vergonha, por isso não saberia dizer se alguém viu aquilo ou não. Mas não importava se havia plateia, senti um desgosto imenso pela invasão gratuita, pelo atrevimento sem propósito. Não chorei, prendi o choro, senti a garganta doer por isso. Fui o resto do percurso tentando entender aquilo e contendo as lágrimas. Na marra.
Quando cheguei em casa, vi meu pai sentado em uma cadeira do terraço, fiquei com mais vergonha de passar por ele, era como se ele pudesse enxergar através de mim o que tinha acontecido. Não queria que ninguém soubesse. Parece uma coisa boba, mas na época fiquei muito encabulada com isso. Passei rapidinho, ele estava de pijama, a perna esquerda dobrada com o pé apoiado no assento da cadeira e o braço também esquerdo estendido em cima do joelho dobrado, acho que lia alguma coisa. E eu desejei ser invisível. Passei por ele, olhei de rabo de olho, ele continuava sua leitura. Ufa! Senti alívio. Corri pro quarto pra chorar. A humilhação doeu na alma e a sensação de impotência causou revolta. Fui pega de surpresa, não tive ação. Mas era assim que eu era, não me defendia de nada, ficava acabrunhada num canto, magoada, mas não ousava retrucar coisas desse tipo. Não iria me vingar, não iria fazer nada, sabia disso. Queria esquecer logo. Demorou um pouco e sofri durante um tempo. Porque tudo ganha uma dimensão maior quando se tem pouca idade e nenhuma defesa.
Custei a confiar em quem se aproximasse de mim. Meu sensor de índia Tabajara, como me chamava tio Eurides, ficou ainda mais aguçado. Fiquei mais cabreira. Conheci a concha do mar...
Criança tende a ser muito cruel em sua inocência. Sem dó nem piedade.
E coisas como essa começam a formar o divisor de águas. E de certa forma serviu para que eu aprendesse a reagir, não a revidar na mesma moeda, porque isso seria uma grande estupidez. Mas sim reagir de maneira a não permitir que me “levantem a saia” apenas porque não faço parte de uma unanimidade em voga. Ou só porque estou na contramão e distraída pisando em estrelas.
"Hoje estou melancólica e suspirosa,
choveu muito, a água invadiu este porão de lembranças,
bóiam na enxurrada a caminho do rio. "
[Adélia Prado]
9 comentários:
"A farda era uma microssaia plissada na cor azul-marinho. A blusa de tergal branca com apenas um bolso do lado esquerdo com o emblema da escola bordada".
Esse uniforme é clássico!
Gerou trauma, hein? Dá pra perceber. Se vc nunca esqueceu isso, então mexeu muito contigo.
certas atitudes nos marcam pra sempre mesmo. teu texto tem um frescor de tempos coloridos e alguns em tons de sépia.
infelizes daqueles que não sabem o quão mal podem fazer a um adulto o maltratando quando criança.
gde bj meu.
Ultimamente tenho tido mais receios em esquecer...
êta mulher pra gostar de mudar os móveis de lugar!
Infelizmente a visão (tou ficando velha) não estava 'gostando' do leiaute escuro, optei por esse mais suave e nítido.
Talvez fique por um bom tempo com esse...
Mas taí uma coisa que não gosto, mudar, no sentido literal, os móveis de lugar. Mudo não! Só se for por uma real necessidade, ou recomendação do Feng Shui. =]
Não reagir a esse tipo de brincadeiras, pode significar pelo menos duas coisas: superioridade ou inferioridade. Esta última, está relacionada, muitas vezes, com a timidez. Mas não é nada que crie complexos ou traumas no futuro...
Querida amiga, tem um bom Domingo e uma boa semana.
Beijos.
Bebel que crônica mais gostosa de se ler no inicio da semana... Conte mais estórias dessas, agora que ouvi sua voz(uma mimosura) no vocaroo,ja posso imaginar você contando-as.
Bjão no coração.
ai, que eu adorei isso aqui...
oi querida
conheci seu blog navegando por haí
pabéns pelos seus poste
nassa no meu cantinho quando tiver tempinho
bjus
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